lunes, 22 de junio de 2015
Há coisas mais genias que um cigarro
Passar um dia em silêncio. A que isso me leva? A que isso te leva?
Observar. Observar. O silêncio me leva a um cigarro. Meio de noite. Um cigarro. Ou foi o filme "Geração Prozac"? Ou foi o filme sobre o qual não se pode falar com alguém? Foi a falta de alguém com quem falar do filme que te leva ao cigarro? Ou foi o silêncio que instaurado antes mesmo do silêncio estar decretado como norma do dia? O cigarro me leva ao coração doendo. Ou o coração já estava doendo e apenas não se sentia? O cigarro me leva ao chá, para acalmar dores e culpas por fumar o cigarro. Foi a culpa, não o cigarro que fez o coração doer? Foi a culpa. O cigarro te faz perceber o quarto, as grades, o tempo. Ou foi o silêncio? O silêncio me, te, faz perceber o quarto, as grades, o tempo. O silêncio me faz escolher. Escolher o silêncio me faz escolher. Ser uma mulher pública? Ser uma mulher privada? Ser uma mulher entre grades, num quarto, no tempo? O quarto, as grades, o tempo me fazem escolher ser uma mulher pública. Me fazem escolher escrever. Furar o quarto, as grades e o tempo. Furar o silêncio. Rompê-lo. A culpa, o coração doendo me fazem escolher o cigarro. A culpa, o coração doendo me fazem escolher jogar fora o cigarro. O chá, o que me fará escolher? Talvez a próxima frase, a próxima observação, o próximo click. Qual o meu remédio? Qual o seu? O que é aquilo que sustenta sua dor? Que afugenta sua dor? O que é aquilo que te faz ser, ou ficar, repetitivo? O que é aquilo que te faz ficar, ou ser, repetitivo? Repetitivo. Titivo. O que é aquilo? A internet fura o meu silêncio. Digito. Uso as palavras. Poderia ficar um dia sem dizer e escrever palavras? Você poderia? E sem ler? As palavras viciam. Palavras repetitivas aprisionam os seus sentidos. Aprisionam? Deixar esse quarto, essas grades, esse tempo, essas palavras, esse cigarro que já queimou, esse chá que já bebi, que bebo sempre, me fariam outra? Desabituar meu ser habituado as coisas, pessoas, cheiros, comidas, desejos, humores, anseios, cigarros, gestos, palavras... me faria outra? Não ser, me faria outra? E ser novamente? Ainda estou no quarto. Ainda sou privada. Pelas grades, pelo tempo, pelo cigarro, pelas palavras repetitivas. Pela culpa? Pelos medos? De não ser mais quarto, grades, tempo, cigarro, chás, pessoas e palavras? Pelo que? Impulso. Pensamento. Você, eu, está aquém, está além do que o, me rodeia? É possível não ser as coisas, as pessoas, o que se escuta e ouve, o que se vê e faz e pensa? É possível estar num estado de não interferência? É possível não ser atingido e modificado por tudo que mesmo sem respirar vibra perto da gente? É possível o silêncio? É possível uma postura decente na vida? Decente por proteger a si? Penso no cigarro. Cigarros querem que pensemos neles. Mas é São João, e tudo está bem, pois ouvir Alceu Valença ainda faz sentido, como pensar em comer bolo de milho alimenta a imaginação de prosperidade. De encontrar aquelas coisas que acendam no corpo memórias e paisagens de querer experimentar, porque há de se encontrar o que é bom, a cada instante.
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