Há uma certeza instaurada em minha boca, é o sol. Há bastantes incertezas também. Quem são elas? Você já sabe. Todos sabemos. A Lua que cresce e decresce. Cíclica. Encíclica. Se eu fosse escrever uma encíclica começaria por aí: Há de se proteger a fauna e flora selvagens feminina. As habitações sagradas da selvageria, que nos ensina a morrer e recompor. A sermos cíclicos, de sangramentos cíclicos...e tudo bem, porque assim é. Dizer adeus poderia ser como dizer olá, se assim fosse, sangra e refaz. Útero. Morrer também é útero. Simplesmente escorre, porque assim tem de ser. Escorre... porque assim tem de ser. Rubro. Vermelho. Sangue. Escorre. Porque assim tem de ser. Cólicas são apegos. É não querer dizer adeus. Reter o adeus. Útero retendo o adeus é cólica. Se eu não me demorasse em deixar partir, sangraria com mais graça. Sempre com melancolia, pois adoro chorar. E também ter raiva. A raiva me ergue vermelha. E também gozar, pois gozar me alimenta o sangue. Quando a cólica é só dor, não sinto nada disso. Nem melancolia, nem raiva, nem gozo. Talvez me odeie aí, nesse ínterim de descamação. Não quero ser nova, nem deixar de ser (?). Sinto medo de quem vem de lá de mim, a cada morte. Acabo de aprender algumas coisas. Menstruar faz bem. Dizer adeus faz bem. Renovar faz bem. Isso é tão óbvio. E o que me faz reter tão mal o que não vai bem? Que demora é essa em despedir-me? Que demora é essa em deixar de ser? Quando menstruo parece um milagre. Quando digo adeus, morro. Gostaria de menstruar na praia. Digo isso e já quero me corrigir. Menstruar na praia? Quero deixar essa imposição de ser sempre a mesma, bem ali, onde o mar lava e leva. Deixar o sangue escorrer num adeus a tudo que desliberta. A tudo que esconde o meu prazer de viver, Escarlate.
martes, 23 de junio de 2015
23 de junho (II) Quando tiver que dizer adeus, apenas diga adeus (A.G.)
Há uma certeza instaurada em minha boca, é o sol. Há bastantes incertezas também. Quem são elas? Você já sabe. Todos sabemos. A Lua que cresce e decresce. Cíclica. Encíclica. Se eu fosse escrever uma encíclica começaria por aí: Há de se proteger a fauna e flora selvagens feminina. As habitações sagradas da selvageria, que nos ensina a morrer e recompor. A sermos cíclicos, de sangramentos cíclicos...e tudo bem, porque assim é. Dizer adeus poderia ser como dizer olá, se assim fosse, sangra e refaz. Útero. Morrer também é útero. Simplesmente escorre, porque assim tem de ser. Escorre... porque assim tem de ser. Rubro. Vermelho. Sangue. Escorre. Porque assim tem de ser. Cólicas são apegos. É não querer dizer adeus. Reter o adeus. Útero retendo o adeus é cólica. Se eu não me demorasse em deixar partir, sangraria com mais graça. Sempre com melancolia, pois adoro chorar. E também ter raiva. A raiva me ergue vermelha. E também gozar, pois gozar me alimenta o sangue. Quando a cólica é só dor, não sinto nada disso. Nem melancolia, nem raiva, nem gozo. Talvez me odeie aí, nesse ínterim de descamação. Não quero ser nova, nem deixar de ser (?). Sinto medo de quem vem de lá de mim, a cada morte. Acabo de aprender algumas coisas. Menstruar faz bem. Dizer adeus faz bem. Renovar faz bem. Isso é tão óbvio. E o que me faz reter tão mal o que não vai bem? Que demora é essa em despedir-me? Que demora é essa em deixar de ser? Quando menstruo parece um milagre. Quando digo adeus, morro. Gostaria de menstruar na praia. Digo isso e já quero me corrigir. Menstruar na praia? Quero deixar essa imposição de ser sempre a mesma, bem ali, onde o mar lava e leva. Deixar o sangue escorrer num adeus a tudo que desliberta. A tudo que esconde o meu prazer de viver, Escarlate.
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