viernes, 26 de junio de 2015

Líquida



Segundo bloco (a lua)

Canção 1. (Na canção aparece a lua)



Texto 4.


Eu tenho tanto medo Lua. Tanto medo. Parece que me perdi. Parece que fiquei do outro lado, onde ninguém pode me ver. Sombreada. Você me ilumina incrivelmente bela e eu não tenho seu domínio. São só nuvens e uma multidão que não posso compreender. Você me fascina e eu choro, choro por não compreender, sequer este mundo, quanto mais o seu, pedra que brilha luz. Pensar em astros não me faz mais luz. Pensar em ti, lua, me encarrega de querer saber mais, mais e mais sobre a vida, inconcebível. Bebo do seu veneno. É doce e amargo. Amarelo e negro. É ouro brilhando acima de luzes. São pequenas partículas em devoção e eu aqui, sem saber. Tenho medo. Me diz. Tenho medo, e muitas vezes nem sei o que fazer. Tenho medo de estar só. Não ser mais que um astro solitário. A brilhar, eu sei. Um astro solitário a brilhar, por traz de nuvens. Que sentido tem tudo isso? Você se põe e minha face é bela. Tudo que esperei rever. Como aquele domingo, dançando luz, céu, luar em mãos. A Ilha de Itaparica agradece as suas telas. Mal posso respirar se lembro dela. Luar caindo por traz de sol. Quanta poesia! Você me lembra que nem tudo é isso e eu te amo. Ficarei a noite inteira te vendo ir, descer farta, torta, guia maior das horas de sonolência, perfeita saúde em seu ser. Afrodite. Mistério de vida. Minha alma cativa quer fugir. Eiiihhh. Bola amarela, dissolve entre as nuvens formas mil. Some e aparece. Se deita em nuvens. Vira flecha. Me banha de pressa de te ver entrar no mar. Cortante. Atravessa. Cria pêndulo. Mistura-se. Tece ninho. Faz meu coração bater miúdo. Penso em te abraçar... e não tenho mais medo. Te espero curar minha lágrima com seu ardor de fogo. Incandescência que reluz em minha porta. Me abre. Transpassa em mim meu coração. Cadê ela? (Silêncio...) A lua desce. Sumiu.



Texto 5.

Marés. Uma lágrima se aproxima de um verso porque cai sem sentido métrico mas cai poesia à espera sempre à espera de uma outra lágrima tal qual uma palavra que não se completa Quando rio Copiosa, tempestade salgada em mar as lágrimas são versos-desespero que não cansam, não cessam, não bastam são o texto perfeito para um fim de amor ou para uma carta de amor São di-ssolução É maré limpando água É o sim e o não de mãos dadas É contradição de maré que arrebenta o mar nas pedras, no cais, na beira... transbordando... transformando... pra trazer paz Por isso quando o olhar marejo sei é tempo de poesia porque poesia é de tanto em tanto água e sal feito lágrima, feito mar versos simples palavras simples que unem tudo aquilo que sentimos aos transcursos da maré É uma parte de nós que volta a fazer sentido como um gole de água cedido ao rio como um verso colocado ao fim do dia para acabar o poema... Melancolia.

Texto 6.

?

Texto 7

lilith?


(Esse bloco pode ter textos sobre a lua, sobre as conchas, sobre os ciclos, a fase oculta, etc.)

jueves, 25 de junio de 2015

Lua bonita

Lua bonita por Maria Bethania (Fazer click para escutar)


Se tu não fosse casada

Eu preparava uma escada

Pra ir no céu te beijar


Se colasse teu frio

Com meu calor

Pedia a Nosso Senhor

Para contigo casar


Lua bonita

Me faz aborrecimento

Ver São Jorge num jumento

Pisando teu quilarão


Pra que casas-te

Com homem tão sisudo

Que come dorme e faz tudo

Dentro do teu coração


Lua bonita

Meu São Jorge é teu senhor

É por isso que ele vive

Pisando teu esplendor


Lua bonita

Se tu quer o meu conselho

Vai ouvir eu tô alheio

Quem te fala é o meu amor




Deixa São Jorge

No seu jubaio a montado

E vem cá para o meu lado

Pra gente viver sem dor.







Primeiro bloco ou introdução (introdução)




Uma mulher aparece por trás de uns rochedos e caminha até a borda de um precipício. canta palavras inventadas que parecem lamentos, hinos ou gritos. (Essas palavras serão três. Serão retomadas ao longo da "peça" como transições, introdução, fechamentos...) Seus gestos transmitem abandono, sofrimento, renuncia, pesar, desespero e fúria... Parece que vai se jogar no mar. Porém sua tribulação se transforma pouco a pouco em um ritual de renascimento. 

A mulher se dirige então à beira de uma piscina calma de águas salgadas onde improvisa 
uma ode aos elementos, ás sensações, ao estar presente nesse lugar, nesse instante...

Depois dessa apertura, pronuncia uma das palavras musicais inventadas.  Essa palavra introduze os três textos do primeiro bloco.

Um coração grita por novos caminhos. Há nele adereços de melancolia. Ainda que a estrada aponte pra ida, há sempre uma volta, uma dor de partida, um caminho que volta. Por onde passa flores crescem. Outras tantas morrem... E o que é a estrada senão a andada em estações de vida-morte-vida? Já que a estrada é também fértil pelas flores mortas, meu coração cultiva Outros campos, outras cores, outros sabores Sob o falecer das flores idas. Em suave desapego Tudo nasce e renasce. Não duvido, A morte aduba a vida!


As manhãs chuvosas são meu melhor remédio. Posso tomá-las e chorar. Sano em água meu concreto barro seco, para ser lama entre vértebras cervicais. Gosto de Frida. Como ela... tenho coluna quebrada e verso. Há quanto tempo não sinto esse cheiro... esse cheiro de manhã, de me dar as mãos, de me ver no céu e no vento. Eu gosto da chuva. Como gosto! Sou ela caindo, gotejo.


Retornar, eis tarefa mais difícil! Lembrar de ser... não esquecer. A busca não é por poder, é por poder ser, mulher, num país de homens, num mundo masculino, em dias de guerra, a espera, letal. Morre-se muito, todo dia, morre-se muito, por covardia, morre-se muito, quadro nefasto... Angario flores no seio e ventre da mãe de tudo. Haverá um dia, e este dia é hoje, em que a alma feminina virá nos despir, virá nos vestir, de flores, de amores, de cores, de odores, de terra, de vida! Aí, almas renascidas, mulheres levantadas, homens em comunhão, andaremos juntos, Sequer pensando em armas, Sequer planejando dominação, Opressão, num jeito especial de fazer política, de fazer amor e de dizer não. Haverá um dia, e esse dia é hoje, em que a lentidão do gestar será nosso maior conselho. Pausar... Pousar os olhos, o corpo, no substrato da terra, na andança, na bem aventurança, no explícito inaudível, silêncio, E por ser lento, nos gestará em forma de... em formas de... Descobriremos! Renasceremos! Inauguremos uma nova era, Feminina, pausa ativa, Mulher!

Outra das palavras musicais serve agora como introdução  para o segundo bloco que começa com uma canção.

Um hino do Atharva Veda

"Nascida do vento, do ar, do relâmpago, da luz, possa a concha nascida do ouro, a pérola, defender-nos do medo! Com a concha nascida do oceano, a primeira de todas as coisas luminosas,matamos os demônios (rasas) e triunfamos sobre os (demônios) devoradores. Com a concha, (nós triunfamos) sobre a doença, sobre a pobreza... A concha é nosso remédio universal; a pérola nos preserva do medo. Nascida do céu, do mar, trazida por Sindhu, essa concha, nascida do ouro, é pra nós a jóia (mani) que prolonga a vida. Jóia nascida do mar, sol nascido das nuvens, que ela nos proteja das flechas dos deuses e dos Asuras. Tu és um dos ouros (a "pérola" é um dos nomes do ouro), tu és nascida da lua (Sôma), tu ornamentas as carruagens, tu resplandeces sobre os carcás. Prolonga nossas vidas! O osso dos deuses é feito de pérola; ele nasce e se forma no sei das águas. Retenho-te pela vida, e o vigor e a força, pela longa vida, a vida de cem outonos. Que a pérola te proteja!"Observações sobre o simbolismo das conchas, Mircea Eliade, p. 128./// Imagem de Georgia O´Keeffe

martes, 23 de junio de 2015

23 de junho (II) Quando tiver que dizer adeus, apenas diga adeus (A.G.)


Há uma certeza instaurada em minha boca, é o sol. Há bastantes incertezas também. Quem são elas? Você já sabe. Todos sabemos. A Lua que cresce e decresce. Cíclica. Encíclica. Se eu fosse escrever uma encíclica começaria por aí: Há de se proteger a fauna e flora selvagens feminina. As habitações sagradas da selvageria, que nos ensina a morrer e recompor. A sermos cíclicos, de sangramentos cíclicos...e tudo bem, porque assim é. Dizer adeus poderia ser como dizer olá, se assim fosse, sangra e refaz. Útero. Morrer também é útero. Simplesmente escorre, porque assim tem de ser. Escorre... porque assim tem de ser. Rubro. Vermelho. Sangue. Escorre. Porque assim tem de ser. Cólicas são apegos. É não querer dizer adeus. Reter o adeus. Útero retendo o adeus é cólica. Se eu não me demorasse em deixar partir, sangraria com mais graça. Sempre com melancolia, pois adoro chorar. E também ter raiva. A raiva me ergue vermelha. E também gozar, pois gozar me alimenta o sangue. Quando a cólica é só dor, não sinto nada disso. Nem melancolia, nem raiva, nem gozo. Talvez me odeie aí, nesse ínterim de descamação. Não quero ser nova, nem deixar de ser (?). Sinto medo de quem vem de lá de mim, a cada morte. Acabo de aprender algumas coisas. Menstruar faz bem. Dizer adeus faz bem. Renovar faz bem. Isso é tão óbvio. E o que me faz reter tão mal o que não vai bem? Que demora é essa em despedir-me? Que demora é essa em deixar de ser? Quando menstruo parece um milagre. Quando digo adeus, morro. Gostaria de menstruar na praia. Digo isso e já quero me corrigir. Menstruar na praia? Quero deixar essa imposição de ser sempre a mesma, bem ali, onde o mar lava e leva. Deixar o sangue escorrer num adeus a tudo que desliberta. A tudo que esconde o meu prazer de viver, Escarlate.