martes, 28 de julio de 2015

O que queremos, o que buscamos, os significados desse trabalho para nós...






Para mim fazer teatro ou qualquer atividade que tenha algo de artístico é uma das formas de estar no mundo, de homenagear à vida, de amadurecer meus sentimentos, de conhecer ideias próprias e alheias, descobrir percepções próprias e alheias, de comungar com outros, de me aprimorar para receber esse dom que é viver... Então, em primeiro lugar, diria que "Fases" é isso, é minha forma de compartilhar meu estar presente hoje, de compartilhar minhas perguntas, minhas dúvidas, meu sentido da beleza e da incerteza... é o livro de poemas que estou lendo, as perguntas que me faço, o cotidiano dessa busca de beleza e compreensão...

Fases é também uma história de mutações, de transformações, de quebras... é uma trilha por uma paisagem exterior e por um mundo interior...é uma forma de evocar todo o que esses poemas e essa paisagem trazem para nós...

Como estou saindo de Salvador de aqui a pouco, para mim esse trabalho tem também esse sentido de presente, de gratidão, de despedida... é como um abraço na beira da cidade...

o que mais?...

Ai ai... "Fases" é um "ai ai", um suspiro que damos por não saber, ou por saber, por cansaço e por encantamento...é o horizonte. É especialmente para mim um rito de passagem, tenho essa metáfora comigo, um rito de passagem para me tornar um mulher, mais uma vez. Rito esse perdido em nosso dia-a-dia, em que a vida segue sem que constatemos ou celebremos a sua beleza, e sem que também façamos honra às coisas mortas que nos acompanharam, para deixa-las ir, e elas a nós .

É onde tenho tentado me refazer, me expressar, me desencontrar e me encontrar, suportar a dor, transpor a dor e reencontrar um sentido para elas, reconhecer por onde nascem e por onde morrem, ter paciência. É um momento de lavar a alma e reaprender a chegar e a partir, a plantar e a colher, a doar e receber, a ter um amigo. Mover como as águas.

A arte é a única maneira que encontrei de estar viva, de ressignificar o absurdo que é estar no mundo, e as violências que sofremos nele, de acordar constantemente meus fantasmas e conversar com eles, de acordar a poesia nascida por todas as coisas que vivi, senti, sou, ainda que não saiba, ainda que não tenha percebido este vivido, este sentir e este ser. A arte expressa meus pés, meus olhos, meu corpo...a necessidade constante de querer viver. "Fases" é não querer ser apenas um depósito, um acúmulo, um poço de águas paradas, é querer acreditar, constantemente acreditar que o que sentimos tem valor, que o que criamos tem valor, que também podemos apresentar ao mundo um olhar, posto que este nasceu da dedicação intensa à vida, ao existir.

Também, é o resultado de um encontro, de um diálogo, de uma amizade. O trabalho reflete uma confiança, uma cumplicidade que foram crescendo e se fortalecendo ao longo do processo criativo.

Com relação a meu projeto de desenvolver um teatro que aconteça em cenários "naturais" (orlas marinhas, matas, desertos, vales, etc.), fases é um primeiro experimento. É muitas das questões que implica desenvolver uma poética partindo desses espaços foram visitadas em esta experiência...Nesse sentido Fases propõe também uma apertura a outros imaginários, imaginários relacionados com o feminino, com a lua, com o mar e com o sagrado...

Feminino, lua, mar, sagrado... aí me identifico e me encontro nos estudos de ritos poético-teatrais de iniciação ao feminino sagrado. Desejo que primeiro nasceu pela necessidade e por um chamado da misteriosa natureza viva, para despertar as fases e faces que habitavam latentes o meu ser, que esperavam palpitantes num lugar imenso e numinoso chamado poesia pessoal. Nele encontro força e um lugar para atuar enquanto uma mulher de teatro, de arte e feminista, investigando processos teatrais-rituais que favoreçam mulheres ao encontro, ao despertar de uma corporeidade própria, de uma ancestralidade libertadora, de um porvir no qual os desejos próprios sejam vistos, buscados e legítimos primeiro para si mesmas. Renovar ciclos, símbolos, chacoalhar o imaginário de possibilidades de ressignificação de vida e fontes de vida. Saber-se não só, mas parte de uma força poderosa, de energias que destroem e restauram: a Natureza.

Fases é o momento em que posso abranger meu vocabulário, alargar os sentidos contidos nos símbolos: corpo, palavra, memória, pertencimento, espaço, conexão... acordando isso, encontrando um caminho, nesta cumplicidade, para chegar a uma presença que comunique essas intenções.

É dança, dança, dança, dança!



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