sábado, 24 de octubre de 2015

Avaliação




Bom, vou começar parte da avaliação...algum registro linguístico há de ter-se logo após, quanto mais se espera, mais se perdem as palavras.

O dia:
Belo dia...senti falta das luzes, e refleti que talvez não tenha prestado atenção a elas. O dia agradece a presença.

O olhar:
Importante e necessário buscar os olhos de quem vê e tentar dizer “é isso que sinto, que se passa, que acontece”

O feminismo:
Mais claro. Todo o processo. Meu corpo rígido, a dificuldade de ensaiar na praia, o temor, o corpo constrangido. O medo do assédio.

A autora:
Reconhece que suas palavras não foram em vão. Não são em vão. Sua dor não é em vão. Morre-se muito todo dia mesmo. Faz-se misérias com nossas vidas. Todos sofremos essas misérias. Com essa ausência de expressão. A voz entalada, o corpo entalado, o desejo entalado. Não se revele, se esconda, não se revele...a autora percebe tudo isso e escreve à atriz.

A atriz:
Busca o mar, busca o movimento, busca o yoga, busca acordar o corpo, os chakras, a voz, o desejo. A atriz busca preparar-se para falar...sofrer e sorrir de formas livres, livres, livres, livres, livres...Ao que esconder a lágrima? Estou bem, mas um lugar em mim sempre sofre, porque sofrer de verdade, expressar a dor de verdade, não é sofrer. Sofrer mesmo é não expressar a dor, a dor, a dor, a dor. A atriz se prepara...vai acordando...reconhece que tem corpo, pescoço, inteligência, emoções e uma coluna inquieta pelas palavras da autora, e um corpo que quer sair tremilicando ahhhhfffshiiibuuuuuh! A atriz reconhece que sua voz estava emocionada e cansada. Prepara, continua se preparando, vê com mais clareza por onde precisa caminhar e o que fazer para acordar. Para ter uma técnica a favor da sua voz, de seu corpo, que querem se encontrar, sim querem se encontrar e que lindo será esse dia, sim, um orgasmo completo, uma verdade expressa em praia, seu desejo. A atriz quer conhecer esses passos, essas mulheres, sentir o movimento dessas mulheres, todas elas, comunicar o desejo delas...tudo isso q ue a autora lhe contou faz tempo e que só agora começa a entender um pouco mais. A atriz tem medo, e sabe agora o quanto tem medo, mas ama muito mais estar em cena, que ausentar-se. A atriz toma as palavras da autora e chama delas. Como toma o sofrimento de ser mulher, a força de ser mulher e quer levantar não uma bandeira, mas uma transformação interna, líquida, que se alongue como onda, seja levada pelo vento e possua cada mulher desse planeta. A atriz quer se indignar, gritar fora, gritar dentro, gritar chega, quer fazer política de inconsciente e consciente, fazer política dos sentidos. A atriz acredita que é possível ser feliz e deseja, deseja, deseja muito, não propagandear, rotular ou modelar, mas ampliar a sua voz por aí. A atriz está aprendendo a ser atriz, a ser feminista, a ser feminina, a amar animus e anima, a ter uma razão e um sentido para sua vida, ainda que provisório. A atriz ama, ama, ama, ama muito a arte, ama processos, ama conseguir falar, dizer, sentir, atravessar a noite escura louvando a lua, tocando as faces que não se mostram e revelam a sua lucidez. A atriz busca mergulhar mais profundo, porque assim lhe contam as águas, os peixes e as sombras marinhas. E assim ela vai levando a todos que a assistem para algum lugar desconhecido deles mesmos, algum olhar que ficou perdido no dia a dia, alguma ingratidão, algum desassossego, algum amor, louvor, desespero, desesperança, desintegração, desconfiança, agressividade, alguma raiva, medo, algum intento que não foi gritado, algum silêncio que não foi dito, algum eco que escapou...e sente o seu próprio eco bater nas pedras. Assim a atriz acolhe as damas que passam por ela, os olhos que passam por ela, a atriz se prepara, aconchega em seu colo Adriana Gabriela e tudo que cabe aí. A atriz se resguarda e se revela, sabe e aprende a escutar cada dia mais a terra, as águas, os pássaros, os ventos, os astros e a ela mesma. A atriz quer em alguns momentos ficar completamente sozinha e concentrada, sem pensar em nada que não seja estar presente, atuar, encarnar.

As deusas
Agradecem a presença e pedem mais presentes, como uma campanha pró limpeza de suas rochas, águas. Pedem o amadurecimento de uma ação concreta de limpeza de sua morada. Enviam essa semente para ser pensada como parte de Fases. E rogam pela proteção deste projeto, alimentado por ações e por descansos. Por um conhecimento contínuo do dia...e da noite. Pelas várias faces que aqueles que vivem em nós revelam, aos poucos uns para os outros, segundo a benção e à comprennssão maior do sentimento de amizade.

A produtora
Acredita que foi um bom início, que o projeto segue em amadurecimento. Que é preciso pensar em meios mais efetivos de alcançar o público, sem tanto desgaste. Que para próxima apresentação temos que efetivamente conseguir levar 20 pessoas. Tem algumas conexões que falará em breve, se surte ou não efeito. Que nesse momento o trabalho é exatamente esse, angariar público e assentar um “espaço virtual”, onde a comunicação possa continuar a ser estabelecida. Que bons ventos sopram. Entende que a melhor produção é o interesse que produtores tenham no projeto. Ansiosa por chegar lá, não sabe onde, mas em algo sutentável, que viabilize nosso trabalho, investimento e a continuidade dele.

A poeta...
não precisa dizer nada. Viveu. Espera dar um beijo de língua na atriz
A atriz é quem mais fala porque no fim, início de tudo, é o que sou. Ou não = )

lunes, 19 de octubre de 2015

Dois poemas escritos da cama que me fizeram sair de casa

Aqui ainda será um lugar onde publicar poemas, fragmentos, palavras, trechos, intuições que nascem do exercício de atuar em minha própria vida o alargamento de ser outras. Todas as poesias nascidas "ao redor", provocadas por essa experimentação. Como num "querido diário", sem estardalhaço, ainda irei furtivamente entrar aqui, quando não couber em mim, quando precisar dizer para ninguém, para você, como quem entende que algo nunca termina, como quem deseja abrir baús, arquivos, versos de gaveta e dar-lhes um respiro, um sopro....como quem admira o estado de ser anônimo, despercebido, e poder declarar o que o coração ordena, sem a incoerência de querer ser aceita. Língua solta, ventre livre, verso sem verso, palavras escorrendo pelo desejo simples de revelar e existir.

...

Quando eu puder dançar com o medo
e de pernas abertas deixar que me atravesse o tempo,
o espaço, o momento, o instante, não temerei
mais a morte, terei realizado a palavra certa
o gesto, o amor, a união do que sou.
(Fecundação)

...

Uma mulher me espreita
deitada comigo, nua
Surge quando menos espero
e não me traz sorrisos gratuitos
Uma mulher me estreita
a sorridente forma de viver
espreme meus lábios das palavras idas
e anuncia em meus seios o que é viver
Uma mulher me lambe todo dia por sussurros
os desejos que cabem no meu cheiro
em meu descanso
na vontade mole de não fazer nada
e apenas me amar até segunda de manhã.
(Lua Nova)

domingo, 18 de octubre de 2015

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A semana próxima, 22 de outubro de 2015 se estreia Fases...

Essa semana publicaremos as fotos da estreia...

Talvez também algum comentário sobre o que significou  para cada um de nós 

a conclusão dessa etapa...

Então, depois disso... 

esse blog terá concluído sua missão: acompanhar o processo criativo de Fases.

Um pouco como essas sondas espaciais que vagam no espaço,

ele continuará por um tempo...

levando essas lembranças...

pelo espaço virtual...

Fases de um passado..

Obrigado.



Versão final do Texto de Fases

Fases


(Uma mulher avança com intenção de se jogar ao mar desde um precipício. A metros do desfecho trágico detém-se. Fica um tempo na borda. Se ajoelha. Depois caminha até uma possa de água que formou-se entre os rochedos.)

Canta (trecho de “Luna” de Lila Downs)

maya kana xini-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri

Um coração grita por novos caminhos. Há nele adereços de melancolia. Ainda que a estrada aponte pra ida, há sempre uma volta, uma dor de partida, um caminho que volta. Por onde passa flores nascem. Outras tantas morrem... E o que é a estrada senão a andada em estações de vida-morte-vida? Já que a estrada é também fértil pelas flores mortas, meu coração cultiva, Outros campos, outras cores, outros sabores, Sob o falecer das flores idas. Em suave desapego Tudo nasce e renasce. Não duvido, A morte aduba a vida!

As manhãs chuvosas são meu melhor remédio. Posso tomá-las e chorar. Sano em água meu concreto barro seco, para ser lama entre vértebras cervicais. Gosto de Frida. Como ela... tenho coluna quebrada e verso. Há quanto tempo não sinto esse cheiro... esse cheiro de manhã, de me dar as mãos, de me ver no céu e no vento. Eu gosto da chuva. Como gosto! Sou ela caindo, gotejo.

Retornar, eis tarefa mais difícil! Lembrar de ser... não esquecer. A busca não é por poder, é por poder ser, mulher, num país de homens, num mundo masculino, em dias de guerra, a espera, letal. Morre-se muito, todo dia, morre-se muito, por covardia, morre-se muito, quadro nefasto... Angario flores no seio e ventre da mãe de tudo. 

Haverá um dia em que a alma feminina virá nos despir, virá nos vestir, de flores, de amores, de cores, de odores, de terra, de vida? 

Aí, Almas renascidas, mulheres levantadas, homens em comunhão, andaremos juntos? Sequer pensando em armas, Sequer planejando dominação, Opressão, num jeito especial de fazer política, de fazer amor e de dizer não? 

Haverá um dia em que a lentidão do gestar será nosso maior conselho?

Pausar... Pousar os olhos, o corpo, no substrato da terra, na andança, na bem aventurança, no explícito inaudível, silêncio, E por ser lento, nos gestará em forma de... em formas de... Descobriremos!


Canção 1: Luna, Del ombligo enterrado, jiti koó, ja chinduji-yo ja'a yau  (Lila Downs)

Lua que o barro se mescla na espuma
de todas as noites de minha solidão
sigo os passos que tu me ensinaste
desde o teu regresso até meu final
 
Eu tenho tanto medo Lua. Tanto medo. Parece que me perdi. Parece que fiquei do outro lado, onde ninguém pode me ver. Sombreada. Você me ilumina incrivelmente bela e eu não tenho seu domínio. São só nuvens e uma multidão que não posso compreender. Você me fascina e eu choro, choro por não compreender, sequer este mundo, quanto mais o seu, pedra que brilha luz. Pensar em astros não me faz mais luz. Pensar em ti, lua, me encarrega de querer saber mais, mais e mais sobre a vida, inconcebível. Bebo do seu veneno. É doce e amargo. Amarelo e negro. É ouro brilhando acima de luzes. São pequenas partículas em devoção e eu aqui, sem saber. Tenho medo. Me diz. Tenho medo, e muitas vezes nem sei o que fazer. Tenho medo de estar só. Não ser mais que um astro solitário. A brilhar, eu sei. Um astro solitário a brilhar, por traz de nuvens. Que sentido tem tudo isso? Você se põe e minha face é bela. Tudo que esperei rever. Como aquele domingo, dançando luz, céu, luar em mãos. Luar caindo por traz de sol. Quanta poesia! Você me lembra que nem tudo é isso e eu te amo. Ficarei a noite inteira te vendo ir, descer farta, torta, guia maior das horas de sonolência, perfeita saúde em seu ser. Afrodite. Mistério de vida. Minha alma cativa quer fugir. Eiiihhh. Bola amarela, dissolve entre as nuvens formas mil. Some e aparece. Se deita em nuvens. Vira flecha. Me banha de pressa de te ver entrar no mar. Cortante. Atravessa. Cria pêndulo. Mistura-se. Tece ninho. Faz meu coração bater miúdo. Penso em te abraçar... e não tenho mais medo. Te espero curar minha lágrima com seu ardor de fogo. Incandescência que reluz em minha porta. Me abre. Transpassa em mim meu coração. Cadê ela?


Uma lágrima se aproxima de um verso porque cai sem sentido métrico mas cai poesia à espera sempre à espera de uma outra lágrima tal qual um verso que não se completa Quando rio Copiosa, tempestade salgada em mar as lágrimas são versos-desespero que não cansam, não cessam, não bastam são o texto perfeito para um fim de amor ou para uma carta de amor São di-ssolução É maré limpando água É o sim e o não de mãos dadas É contradição de maré que arrebenta o mar nas pedras, no cais, na beira... transbordando... transformando... pra trazer paz Por isso quando o olhar marejo sei é tempo de poesia porque poesia é de tanto em tanto água e sal feito lágrima, feito mar versos simples palavras simples que unem tudo aquilo que sentimos aos transcursos da maré É uma parte de nós que volta a fazer sentido como um gole de água cedido ao rio como um verso colocado ao fim do dia para acabar o poema...


Eu nasci em pé. Em pé de pedra, bruta flor. Eu rogo à Deusa que me tirou do mais profundo silêncio para vir ter aqui, junta a outras tantas flores e cipós.Peço desculpa, sou mal educada. (riso) Não me apresento de frente, apenas apareço Cândida, e este não é o meu nome.Ninguém de fato reconhecerá meu leito, dado apenas a outra face na morte, ou, para aqueles que crêem. Procure-a. Procure a sebenta, a divina espírita santa senhora, a mainha das horas. Converse com ela que de cá verá relampejante reluzente e amante luarada, luar, lunar, pedra de assombração. Aquela dor que dá em tudo e é foice, lua nova em bastão. Feiticeira minha, mulher. Nem sempre o dito é compreendido. Feche os olhos, sinta esse ar fresco, ouça essa multidão que não te deixa dormir... e deixe ela passar. Respire comigo um sopro profundo e chore, chore pra lavar sua visão.Estamos inteiramente em nós? Ou essa busca é tradição surrealista? As vezes eu acordo no meio da noite e vejo ela me olhando... ah...eu olho pra ela e não sei de nada, Apenas olho, porque ela me olha, noturnamente ela me olha e cobre meu corpo de luz. Estou possuída, passista de sonhos, vislumbre... estou viva, estou fértil.


É a dor da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe da minha mãe que eu choro. Essa dor é de toda a história que existiu até chegar a mim. Eu estudo essas histórias. Eu as vejo referenciada ao meu redor e me pergunto se houve vislumbres de ser feliz. Por trás de toda mulher forte existe um rio, que ampara e escoa cada lágrima deixada por ela, por tentar encontrar e retomar um pouco mais do espaço que lhe foi tirado, sua liberdade, sua doçura, seu ardor de viver e não apenas decepcionar-se. Como ser feliz apesar de? Como ser feliz andando num mundo perigoso, violento?

Me preparo pra ser lua cheia iluminando a noite escura. Para questionar e transgredir sem culpa, e com amor, essa força de sombra consciente direcionada para a construção de um novo e próprio mundo. O poder das bruxas, do canto das sereias, que conduzem ao conhecimento das profundezas, que transmutam a dor, o apartamento da alma, a apatia, a frigidez, em gozo de conhecimento maior que ego, em sensatez de uma comunhão sincera, em paz de compreender os próprios atos, em assunção dos fracassos e fragilidades humanamente heróicos. 

Eis o retorno de Lilith do império da solidão. Eis a mulher suja de sangue e saliva empoderada pela liquidez de seus excrementos férteis; aquela que assume a palavra maldita, a palavra medo, a palavra gozo e assim pode assumir e gestar a palavra amor, pois já viveu e vive as dores gestadoras deste parto como força propulsora do nascimento em si de uma outra humanidade de face exposta e em comunhão com o mundo, rejeitado e esquecido, mais uma vez convidado a aparecer. 

Louvo à minha mãe, à mãe de minha mãe, à mãe da mãe de minha mãe, à da mãe da mãe da mãe de minha mãe. Louvo às minhas antepassadas e à todas as mulheres presentes. Louvo às pequenas e às que virão. Louvo à mim. Louvo querendo aprender a ser mais feliz, por não suportar viver mais na subterraneidade de meus desejos.

Canção 2: Nueve yerba lin yuku kuii (Lila Downs)

Mujer de Dios / Mulher da lua
profeta de hierba / profeta de erva
mujer de la edad del tiempo / mulher da idade do tempo
que hace honor a los muertos santos / deusa do mundo dos mortos
mujer de Dios / mulher da lua
mujer de la obscuridad / mulher da escuridão
mujer de tiempos sagrados / mulher de tempos sagrados
diosa del mundo de muertos / deusa do mundo dos mortos
venas y carne, tu fruto ha crecido / veias e carne, teu fruto cresceu
la tierra tu sangre siempre beberás / a terra teu sangue sempre beberás
ía si'i ja nakani
ini nasa kóó-yo
ña'a ni kuu taninu
Hoje veio me visitar um sentir de ser outra, a mulher que me assusta me entrelaçou com seu rabo de sereia. Serei eu? Será ela? E eu despi minha pele com delicadeza... peça por peça um mundo crescia em segredo... O avesso é o medo de olhar no fundo. Da matéria do mundo o meu corpo é feito. A escuridão é também o meu reduto. Se onde há sol, há sombra, de sol e sombra me completo. Sou encanto, sou solidão. Posso ferir ou ser aconchego. Eu sou má. Eu sou mar. Eu, a mulher que virá.


A rua é minha. A casa é minha. O corpo é meu. A vida, ó Deusa, é minha. Reivindico. Tenho boca, e ela é enorme. Suspiro, Grito, sons de precipício, me lanço grave e aguda. Ando e caminho por onde quero e desejo. Tenho apenas início...(pausa)Vou ali olhar e é você quem me leva Nunca quis a coisa certa. Pra andar comigo, mínimo ser descoberta, entender de transfigurescência, das fases da lua... e se for de pedra, que role! Despreciso de permanência. Atravesso a bamba hora do não saber, becos e vielas, reentrâncias... naquilo que acham sujo estou. Não me convenço em ser adereço, Chuva viva sou Porque os rios também são meus, as praias, fortes e rebentos... O desgosto, o triste o feio, aceito todos, (pausa)e a morte... bela dama que sobe ao altar numa noite de lua crescente, é minha chama e vem orar recostada comigo, em templo, por todas as coisas que me dão medo, pelo filho que ainda não tive, pelo ventre grávido de tudo, pelo amor que nasce em meu seio, pelo meu irmão, irmã, pais... que ficaram a beira do caminho, me sustentando em seus lamentos, entre a luz do sol e a escuridão. Materno todos, (pausa) como materno a mim, às estrelas frutas de céu noturno, árvore cadente, à beleza de vomitar também em beiras de caminho, o que não necessita mais andar comigo, à beleza de deitar-me com a lua, descansar nos olhos dela, clarão de corpo comido de relva... Para ir ter com meus pés, lá, onde mora a bela dama. lá, onde moram os meus medos. lá, onde sou raiz em movimento. lá, onde tem paixão e desassossego, desejo e gozo de ser mistério... Vou, simplesmente vôo.

(Entrando na agua)

Depois de amar e amar e amar um pouco mais amar,
é como que depois de sofrer e sofrer e sofrer,
uma escolha triste,
desejo e medo,
dois papéis de parede,
insistentes.
Se por amor ou por temor,
vai que engraviste do que é teu,
não esqueça de ser renitente,
Nesse liquefaz de nutrientes que nem se sabe bem qual bem que tem,
pergunte-se com fervor, que quero parir?
Se é que há espaço para certezas lógicas...
Mas é sempre espaço para vontadear,
mesmo diante de esquisitices,
Aceite, mas pense em seu bem,
Você, dobrado ao meio, perdido no espaço,
com a garganta cheia de alguma coisa,
e as tetas, tetas!
Barriga nem se fala,
embrulhos de vislumbres,
marés de março em começos de sonho,
O corpo sente tudo.
Tsunami! Ânsia!
Quando será a hora?
De que?
Quem, quem, quem, quem?
O qu ê, o quê, o quê?
Preste atenção,
siga o rastro de seu olho
e vá parir.
Mas Como parir? Se até isso desaprendi.
Eu não sei o que se passa em meu corpo.
Perco poemas.
Reclamo dos dias.
Eu não sei exatamente o que fazer de minha vida.
Quero deixar alguma coisa boa na existência,
então deixo, para além de todo esse medo,
O ardor de ser movida pela vida
e suas estações.
Minha loucura não tem hora, Sai toda de mim E exige que eu me mova. 

pois tem-se que atravessar esquinas
fingindo ser normal
pois tem que se usar a língua
pra ser compreensível
e caber na métrica do dia a dia
Porque a voz, o corpo e o desejo estão confiscados
como as reais palavras, confiscadas
E não olhe para o lado
Não diga o que pensa
Não seja sincero
Não cante, jamais!
E se for dançar encontre logo uma coreografia
de preferência boa
E se for escrever, faça sentido
como um soldado
Escreva direito, ande direito, coma direito, sorria direito, fale direito, fume direito, ame direito, durma direito, sonhe direito...
Minha loucura não tem direito! Ela grita que os erros são todos meus! Os sonhos são todos meus! Meus caminhos, eu quem passo! Ela me empurra pra fora do muro, Me insulta em insinuações de covardia, Me manda pra boca do mundo... 

As águas que passam em mim
são rios que nunca cessam
Sou poeta só de ver
de sentir o que me desperta
Eu rimo a vida que me leva
Eu sou rio e sorrio
porque as vezes faço o avesso da rima
crio frases longas, chego a lugar algum...
Mas sigo, verso sempre!
Insisto em ser poema
em ser
cada dia
dia após dia
a poesia que me cabe e me transborda
Por isso colho ventos pra mais tarde
revolvendo em mim as águas
e deixo o sol me despir de manhã
Tem vento que sopra lento
tem vento que Eparrê Iansã!

Meu verso é sempre de água
porque sou a própria água
sou do rio que posso ser
amo e bebo
do turvo, do límpido
do musgo, limo, lama
que me beiram e acompanham
Eu vejo o mundo, miro ele
e sendo rio, sou espelho
me derramo
sempre...
Às águas que nunca cessam... 
(como confessando isso para as aguas)
Sim, hesitei... hesito...
(saindo da agua e falando para o público)
Eu hesitei até o último segundo a fazer o que tinha. Preceito de morte. 
Presságio que depois da palavra dita, nada se acomodará. Há uma palavra: definifivamente. Ela é tão distante. Me diz nada e mata.
Como alguma coisa pode te dizer nada e te matar? Como um tiro de bala perdida, ou tiro de agressão irremediável e imediata. Nunca consegui ser definitivamente.

Nosso sangue tem fome de não ser definitivo, de não caber em nada...

maya kana xini-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri
e creio na boca de minha terra antiga
que desde a raiz ao umbigo alimenta
a boca do morto que se acha em meu centro
ao centro de meu tempo de vida
Por isso hesito ao que me soa como definitivo. 

Até a própria morte...

Fecho portas apenas para abri-las mais tarde e me recompor dos ventos. 

(Se afastando cada vez mais, caminhando entre os rochedos)

Hesito, pois sei que estarei transformada antes de cada final. (ao final da página um começo diferente)

Hesito pois tenho louvor e medo por tudo que está para nascer e me parece louco e sem sentido.

Hesito pois o plantado poderá ser flor que só dá em matagal, única e solitária. 

lunes, 5 de octubre de 2015

Ilegível

As imagens se referem a um texto em quatro cores: vermelho, azul, marrom e laranja. São cores que se sucedem alternadamente, como em fases. Está ilegível? Assim ainda me sinto. Tentando adentrar as águas, a terra, o vento...meu coração, olhos e lágrimas. Vou escrever uma crônica. A minha tentativa, com todos os horrores e belezas de tentar "interpretar", atuar fases. Esses borrões são tentativas de mapear as emoções dessa mulher que aparece e some nos rochedos.


miércoles, 23 de septiembre de 2015

Texto convite

Pré-estreia de "Fases"
Performance Poética
Dia 24 de Setembro (quinta-feira) Onde: Praia da Barra À iniciar: entre 16h e 17h Colabore: Com R$20,00 
depositados na Ag. 2816-9, CC. 47.226-3, 
Banco do Brasil, em nome de Adriana Gabriela.

Há alguns meses trabalhando em uma Performance Poética a beira mar, Adriana Gabriela, como autora e intérprete, e Martin Domecq, como roterista e diretor, vêm convidar vocês para compartilharem a pré-estréia de "Fases". Fases é o estado atual de uma pesquisa-aventura na qual, temos investido muito trabalho, afeto e paixão na busca de uma montagem de textos poéticos numa paisagem marinha de rochedos, ondas, pinaúnas, algas, bem-te-vis, que muda ao ritmo das marés e dos caprichos do tempo. Chegamos a um ponto no qual não poderíamos continuar sem compartilhar essa experiência com o público. Porém, para chegar a esse público também precisamos de caminhos alternativos. Dado que "Fases", por natureza, não se ajusta a um calendário convencional e previsível, não oferece as comodidades de uma sala teatral e também não pode ser comercializada como outros espetáculos. Dependemos de determinadas condições climáticas e de variação das marés, dependemos de um momento preciso do declínio solar no qual se precipita o pôr do sol. Por isso viemos primeiro pedir o apoio de vocês: amigos, parentes, pessoas próximas com uma sensibilidade e interesses que dialogam com nosso trabalho, para formar um grupo de espectadores (trinta pessoas), para compor a pré-estréia de “Fases”, no dia 24 de setembro (quinta-feira). Se houver algum contratempo climático o evento se adiará uma semana. Uma vez formado o grupo, vocês receberão uma confirmação com o local e o horário exato do encontro. O horário de início será entre as 16h e as 17h, a fim de aproveitar as melhores condições de iluminação para nossa proposta. A cada espectador pedimos a doação de um apoio mínimo de R$ 20,00 (vinte reais), a ser depositado em Ag. 2816-9, CC. 47.226-3, Banco do Brasil, em nome de Adriana Gabriela. Esse fundo servirá para custear produção, realizar e imprimir material de divulgação e montar um site do projeto. Nesse site estarão os nomes de todos vocês apoiadores que apostaram nesse processo criativo. Cada doador receberá no dia da apresentação uma lembrança: uma ilustração com um dos poemas de Fases. Nos envie um e-mail para fases2015@gmail.com contendo seus dados (nome e telefone) e o comprovante de depósito. Aguardamos o contato de vocês. Um grande abraço! Adriana Gabriela e Martin Domecq"