Fases
(Uma mulher avança com intenção de se jogar ao mar desde um precipício. A metros do desfecho trágico detém-se. Fica um tempo na borda. Se ajoelha. Depois caminha até uma possa de água que formou-se entre os rochedos.)
Canta (trecho de “Luna” de Lila Downs)
maya kana xini-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri
Um coração grita por novos caminhos. Há nele adereços de melancolia. Ainda que a estrada aponte pra ida, há sempre uma volta, uma dor de partida, um caminho que volta. Por onde passa flores nascem. Outras tantas morrem... E o que é a estrada senão a andada em estações de vida-morte-vida? Já que a estrada é também fértil pelas flores mortas, meu coração cultiva, Outros campos, outras cores, outros sabores, Sob o falecer das flores idas. Em suave desapego Tudo nasce e renasce. Não duvido, A morte aduba a vida!
As manhãs chuvosas são meu melhor remédio. Posso tomá-las e chorar. Sano em água meu concreto barro seco, para ser lama entre vértebras cervicais. Gosto de Frida. Como ela... tenho coluna quebrada e verso. Há quanto tempo não sinto esse cheiro... esse cheiro de manhã, de me dar as mãos, de me ver no céu e no vento. Eu gosto da chuva. Como gosto! Sou ela caindo, gotejo.
Retornar, eis tarefa mais difícil! Lembrar de ser... não esquecer. A busca não é por poder, é por poder ser, mulher, num país de homens, num mundo masculino, em dias de guerra, a espera, letal. Morre-se muito, todo dia, morre-se muito, por covardia, morre-se muito, quadro nefasto... Angario flores no seio e ventre da mãe de tudo.
Haverá um dia em que a alma feminina virá nos despir, virá nos vestir, de flores, de amores, de cores, de odores, de terra, de vida?
Aí, Almas renascidas, mulheres levantadas, homens em comunhão, andaremos juntos? Sequer pensando em armas, Sequer planejando dominação, Opressão, num jeito especial de fazer política, de fazer amor e de dizer não?
Haverá um dia em que a lentidão do gestar será nosso maior conselho?
Pausar... Pousar os olhos, o corpo, no substrato da terra, na andança, na bem aventurança, no explícito inaudível, silêncio, E por ser lento, nos gestará em forma de... em formas de... Descobriremos!
Canção 1: Luna, Del ombligo enterrado, jiti koó, ja chinduji-yo ja'a yau (Lila Downs)
Lua que o barro se mescla na espuma
de todas as noites de minha solidão
sigo os passos que tu me ensinaste
desde o teu regresso até meu final
Eu tenho tanto medo Lua. Tanto medo. Parece que me perdi. Parece que fiquei do outro lado, onde ninguém pode me ver. Sombreada. Você me ilumina incrivelmente bela e eu não tenho seu domínio. São só nuvens e uma multidão que não posso compreender. Você me fascina e eu choro, choro por não compreender, sequer este mundo, quanto mais o seu, pedra que brilha luz. Pensar em astros não me faz mais luz. Pensar em ti, lua, me encarrega de querer saber mais, mais e mais sobre a vida, inconcebível. Bebo do seu veneno. É doce e amargo. Amarelo e negro. É ouro brilhando acima de luzes. São pequenas partículas em devoção e eu aqui, sem saber. Tenho medo. Me diz. Tenho medo, e muitas vezes nem sei o que fazer. Tenho medo de estar só. Não ser mais que um astro solitário. A brilhar, eu sei. Um astro solitário a brilhar, por traz de nuvens. Que sentido tem tudo isso? Você se põe e minha face é bela. Tudo que esperei rever. Como aquele domingo, dançando luz, céu, luar em mãos. Luar caindo por traz de sol. Quanta poesia! Você me lembra que nem tudo é isso e eu te amo. Ficarei a noite inteira te vendo ir, descer farta, torta, guia maior das horas de sonolência, perfeita saúde em seu ser. Afrodite. Mistério de vida. Minha alma cativa quer fugir. Eiiihhh. Bola amarela, dissolve entre as nuvens formas mil. Some e aparece. Se deita em nuvens. Vira flecha. Me banha de pressa de te ver entrar no mar. Cortante. Atravessa. Cria pêndulo. Mistura-se. Tece ninho. Faz meu coração bater miúdo. Penso em te abraçar... e não tenho mais medo. Te espero curar minha lágrima com seu ardor de fogo. Incandescência que reluz em minha porta. Me abre. Transpassa em mim meu coração. Cadê ela?
Uma lágrima se aproxima de um verso porque cai sem sentido métrico mas cai poesia à espera sempre à espera de uma outra lágrima tal qual um verso que não se completa Quando rio Copiosa, tempestade salgada em mar as lágrimas são versos-desespero que não cansam, não cessam, não bastam são o texto perfeito para um fim de amor ou para uma carta de amor São di-ssolução É maré limpando água É o sim e o não de mãos dadas É contradição de maré que arrebenta o mar nas pedras, no cais, na beira... transbordando... transformando... pra trazer paz Por isso quando o olhar marejo sei é tempo de poesia porque poesia é de tanto em tanto água e sal feito lágrima, feito mar versos simples palavras simples que unem tudo aquilo que sentimos aos transcursos da maré É uma parte de nós que volta a fazer sentido como um gole de água cedido ao rio como um verso colocado ao fim do dia para acabar o poema...
Eu nasci em pé. Em pé de pedra, bruta flor. Eu rogo à Deusa que me tirou do mais profundo silêncio para vir ter aqui, junta a outras tantas flores e cipós.Peço desculpa, sou mal educada. (riso) Não me apresento de frente, apenas apareço Cândida, e este não é o meu nome.Ninguém de fato reconhecerá meu leito, dado apenas a outra face na morte, ou, para aqueles que crêem. Procure-a. Procure a sebenta, a divina espírita santa senhora, a mainha das horas. Converse com ela que de cá verá relampejante reluzente e amante luarada, luar, lunar, pedra de assombração. Aquela dor que dá em tudo e é foice, lua nova em bastão. Feiticeira minha, mulher. Nem sempre o dito é compreendido. Feche os olhos, sinta esse ar fresco, ouça essa multidão que não te deixa dormir... e deixe ela passar. Respire comigo um sopro profundo e chore, chore pra lavar sua visão.Estamos inteiramente em nós? Ou essa busca é tradição surrealista? As vezes eu acordo no meio da noite e vejo ela me olhando... ah...eu olho pra ela e não sei de nada, Apenas olho, porque ela me olha, noturnamente ela me olha e cobre meu corpo de luz. Estou possuída, passista de sonhos, vislumbre... estou viva, estou fértil.
É a dor da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe da minha mãe que eu choro. Essa dor é de toda a história que existiu até chegar a mim. Eu estudo essas histórias. Eu as vejo referenciada ao meu redor e me pergunto se houve vislumbres de ser feliz. Por trás de toda mulher forte existe um rio, que ampara e escoa cada lágrima deixada por ela, por tentar encontrar e retomar um pouco mais do espaço que lhe foi tirado, sua liberdade, sua doçura, seu ardor de viver e não apenas decepcionar-se. Como ser feliz apesar de? Como ser feliz andando num mundo perigoso, violento?
Me preparo pra ser lua cheia iluminando a noite escura. Para questionar e transgredir sem culpa, e com amor, essa força de sombra consciente direcionada para a construção de um novo e próprio mundo. O poder das bruxas, do canto das sereias, que conduzem ao conhecimento das profundezas, que transmutam a dor, o apartamento da alma, a apatia, a frigidez, em gozo de conhecimento maior que ego, em sensatez de uma comunhão sincera, em paz de compreender os próprios atos, em assunção dos fracassos e fragilidades humanamente heróicos.
Eis o retorno de Lilith do império da solidão. Eis a mulher suja de sangue e saliva empoderada pela liquidez de seus excrementos férteis; aquela que assume a palavra maldita, a palavra medo, a palavra gozo e assim pode assumir e gestar a palavra amor, pois já viveu e vive as dores gestadoras deste parto como força propulsora do nascimento em si de uma outra humanidade de face exposta e em comunhão com o mundo, rejeitado e esquecido, mais uma vez convidado a aparecer.
Louvo à minha mãe, à mãe de minha mãe, à mãe da mãe de minha mãe, à da mãe da mãe da mãe de minha mãe. Louvo às minhas antepassadas e à todas as mulheres presentes. Louvo às pequenas e às que virão. Louvo à mim. Louvo querendo aprender a ser mais feliz, por não suportar viver mais na subterraneidade de meus desejos.
Canção 2: Nueve yerba lin yuku kuii (Lila Downs)
Mujer de Dios / Mulher da lua
profeta de hierba / profeta de erva
mujer de la edad del tiempo / mulher da idade do tempo
que hace honor a los muertos santos / deusa do mundo dos mortos
mujer de Dios / mulher da lua
mujer de la obscuridad / mulher da escuridão
mujer de tiempos sagrados / mulher de tempos sagrados
diosa del mundo de muertos / deusa do mundo dos mortos
venas y carne, tu fruto ha crecido / veias e carne, teu fruto cresceu
la tierra tu sangre siempre beberás / a terra teu sangue sempre beberás
ía si'i ja nakani
ini nasa kóó-yo
ña'a ni kuu taninu
Hoje veio me visitar um sentir de ser outra, a mulher que me assusta me entrelaçou com seu rabo de sereia. Serei eu? Será ela? E eu despi minha pele com delicadeza... peça por peça um mundo crescia em segredo... O avesso é o medo de olhar no fundo. Da matéria do mundo o meu corpo é feito. A escuridão é também o meu reduto. Se onde há sol, há sombra, de sol e sombra me completo. Sou encanto, sou solidão. Posso ferir ou ser aconchego. Eu sou má. Eu sou mar. Eu, a mulher que virá.
A rua é minha. A casa é minha. O corpo é meu. A vida, ó Deusa, é minha. Reivindico. Tenho boca, e ela é enorme. Suspiro, Grito, sons de precipício, me lanço grave e aguda. Ando e caminho por onde quero e desejo. Tenho apenas início...(pausa)Vou ali olhar e é você quem me leva Nunca quis a coisa certa. Pra andar comigo, mínimo ser descoberta, entender de transfigurescência, das fases da lua... e se for de pedra, que role! Despreciso de permanência. Atravesso a bamba hora do não saber, becos e vielas, reentrâncias... naquilo que acham sujo estou. Não me convenço em ser adereço, Chuva viva sou Porque os rios também são meus, as praias, fortes e rebentos... O desgosto, o triste o feio, aceito todos, (pausa)e a morte... bela dama que sobe ao altar numa noite de lua crescente, é minha chama e vem orar recostada comigo, em templo, por todas as coisas que me dão medo, pelo filho que ainda não tive, pelo ventre grávido de tudo, pelo amor que nasce em meu seio, pelo meu irmão, irmã, pais... que ficaram a beira do caminho, me sustentando em seus lamentos, entre a luz do sol e a escuridão. Materno todos, (pausa) como materno a mim, às estrelas frutas de céu noturno, árvore cadente, à beleza de vomitar também em beiras de caminho, o que não necessita mais andar comigo, à beleza de deitar-me com a lua, descansar nos olhos dela, clarão de corpo comido de relva... Para ir ter com meus pés, lá, onde mora a bela dama. lá, onde moram os meus medos. lá, onde sou raiz em movimento. lá, onde tem paixão e desassossego, desejo e gozo de ser mistério... Vou, simplesmente vôo.
(Entrando na agua)
Depois de amar e amar e amar um pouco mais amar,
é como que depois de sofrer e sofrer e sofrer,
uma escolha triste,
desejo e medo,
dois papéis de parede,
insistentes.
Se por amor ou por temor,
vai que engraviste do que é teu,
não esqueça de ser renitente,
Nesse liquefaz de nutrientes que nem se sabe bem qual bem que tem,
pergunte-se com fervor, que quero parir?
Se é que há espaço para certezas lógicas...
Mas é sempre espaço para vontadear,
mesmo diante de esquisitices,
Aceite, mas pense em seu bem,
Você, dobrado ao meio, perdido no espaço,
com a garganta cheia de alguma coisa,
e as tetas, tetas!
Barriga nem se fala,
embrulhos de vislumbres,
marés de março em começos de sonho,
O corpo sente tudo.
Tsunami! Ânsia!
Quando será a hora?
De que?
Quem, quem, quem, quem?
O qu ê, o quê, o quê?
Preste atenção,
siga o rastro de seu olho
e vá parir.
Mas Como parir? Se até isso desaprendi.
Eu não sei o que se passa em meu corpo.
Perco poemas.
Reclamo dos dias.
Eu não sei exatamente o que fazer de minha vida.
Quero deixar alguma coisa boa na existência,
então deixo, para além de todo esse medo,
O ardor de ser movida pela vida
e suas estações.
Minha loucura não tem hora, Sai toda de mim E exige que eu me mova.
pois tem-se que atravessar esquinas
fingindo ser normal
pois tem que se usar a língua
pra ser compreensível
e caber na métrica do dia a dia
fingindo ser normal
pois tem que se usar a língua
pra ser compreensível
e caber na métrica do dia a dia
Porque a voz, o corpo e o desejo estão confiscados
como as reais palavras, confiscadas
E não olhe para o lado
Não diga o que pensa
Não seja sincero
Não cante, jamais!
E se for dançar encontre logo uma coreografia
de preferência boa
E se for escrever, faça sentido
como um soldado
Não diga o que pensa
Não seja sincero
Não cante, jamais!
E se for dançar encontre logo uma coreografia
de preferência boa
E se for escrever, faça sentido
como um soldado
Escreva direito, ande direito, coma direito, sorria direito, fale direito, fume direito, ame direito, durma direito, sonhe direito...
Minha loucura não tem direito! Ela grita que os erros são todos meus! Os sonhos são todos meus! Meus caminhos, eu quem passo! Ela me empurra pra fora do muro, Me insulta em insinuações de covardia, Me manda pra boca do mundo...
As águas que passam em mim
são rios que nunca cessam
Sou poeta só de ver
de sentir o que me desperta
Eu rimo a vida que me leva
Eu sou rio e sorrio
porque as vezes faço o avesso da rima
crio frases longas, chego a lugar algum...
Mas sigo, verso sempre!
Insisto em ser poema
em ser
cada dia
dia após dia
a poesia que me cabe e me transborda
Por isso colho ventos pra mais tarde
revolvendo em mim as águas
e deixo o sol me despir de manhã
Tem vento que sopra lento
tem vento que Eparrê Iansã!
Meu verso é sempre de água
porque sou a própria água
sou do rio que posso ser
amo e bebo
do turvo, do límpido
do musgo, limo, lama
que me beiram e acompanham
Eu vejo o mundo, miro ele
e sendo rio, sou espelho
me derramo
sempre...
Às águas que nunca cessam...
são rios que nunca cessam
Sou poeta só de ver
de sentir o que me desperta
Eu rimo a vida que me leva
Eu sou rio e sorrio
porque as vezes faço o avesso da rima
crio frases longas, chego a lugar algum...
Mas sigo, verso sempre!
Insisto em ser poema
em ser
cada dia
dia após dia
a poesia que me cabe e me transborda
Por isso colho ventos pra mais tarde
revolvendo em mim as águas
e deixo o sol me despir de manhã
Tem vento que sopra lento
tem vento que Eparrê Iansã!
Meu verso é sempre de água
porque sou a própria água
sou do rio que posso ser
amo e bebo
do turvo, do límpido
do musgo, limo, lama
que me beiram e acompanham
Eu vejo o mundo, miro ele
e sendo rio, sou espelho
me derramo
sempre...
Às águas que nunca cessam...
(como confessando isso para as aguas)
Sim, hesitei... hesito...
(saindo da agua e falando para o público)
Eu hesitei até o último segundo a fazer o que tinha. Preceito de morte.
Presságio que depois da palavra dita, nada se acomodará. Há uma palavra: definifivamente. Ela é tão distante. Me diz nada e mata.
Como alguma coisa pode te dizer nada e te matar? Como um tiro de bala perdida, ou tiro de agressão irremediável e imediata. Nunca consegui ser definitivamente.
Nosso sangue tem fome de não ser definitivo, de não caber em nada...
maya kana xini-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri
ja najio kava-ri
kava-ri nuni kaku-ri
e creio na boca de minha terra antiga
que desde a raiz ao umbigo alimenta
a boca do morto que se acha em meu centro
ao centro de meu tempo de vida
Por isso hesito ao que me soa como definitivo.
Até a própria morte...
Fecho portas apenas para abri-las mais tarde e me recompor dos ventos.
(Se afastando cada vez mais, caminhando entre os rochedos)
Hesito, pois sei que estarei transformada antes de cada final. (ao final da página um começo diferente)
Hesito pois tenho louvor e medo por tudo que está para nascer e me parece louco e sem sentido.
Hesito pois o plantado poderá ser flor que só dá em matagal, única e solitária.
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