domingo, 31 de mayo de 2015

Eu não estava só, estava em má companhia.


Eu não estava só, estava em má companhia. Sexta-feira eu tentava me concentrar em simplesmente vivenciar a natureza das pedras e água na praia. Tentava ensaiar: observando, respirando, caminhando. Tentava encontrar um corpo para estar entre aquelas pedras, em sintonia. Hesitei inúmeras vezes, queria entrar na água, mergulhar, afundar a minha cabeça ali, ficar submersa de água... tinha medo: da rebentação que quebrava nas pedras e explodia o branco espuma inundando aquela serena "piscina" que antes havia ali. A água ficava turva e eu não podia ver embaixo. Demorei algum tempo observando esse mecanismo que acontecia de tempos em tempos. O mar é assim, viração e calmaria. Poderia entrar no entre rebentações, mas não me senti segura, achei que me assustaria com a água que subiria, que ia desejar sair correndo de lá e bom, ali tem pina-unas, não queria pisa-las. Então mapeei onde estavam as pina-unas, vendo-as de cima quando a água estava límpida, mas ainda assim não entrei depois disso. E escrevo agora porque não entrei com uma indignação de quem se pergunta e ao mesmo tempo constata, porque mulheres se matam?! Porque dizem que mulheres são loucas, histéricas?! Porque dizem que mulheres são melancólicas?! Porque mulheres tem ataques e atacam e cospem e gritam e xingam e golpeiam?! Porque mulheres sentem medo de andarem sozinhas?! Porque elas são permanentemente violentadas?! Porque o mundo exibe em seu entorno simbólico muitos nãos às nossas expressões?! Eu não estava sozinha, estava em má companhia. Na sacada que separa a rua da praia estavam três homens, jovens. Eles me viram nas pedras e começaram a gritar suas palavras de ordem "morena, cuidado morena", "hein mãe, smuuuuack", aquelas beijos estalados nojentos que são sua arma poderosa. Tinha um deles que era o mais pirracento e não deu trégua, falando um monte de merda que só aumentava o meu ódio e vontade de dar uma de louca, subir as escadas e socar a cara dele, tanta raiva que tinha de todas as situações em que temos de ser passivas diante de agressões assim. "Eles são mais fortes", "eles podem estar armados", "eles só estão brincando" e todas essas justificativas que apenas nos mantêm passivas. Lembro que quando tinha 10 anos um homem passou por mim, passou a mão em minha bunda e me chamou de "Gostooooosa", eu reagi na hora, e gritei "Se fuder seu viado!". Pra mim ser viado não é problema algum, mas sabia que pra aquele machão seria. Minha mãe na hora reclamou comigo. Disse pra que eu não fizesse aquilo mais, que ele podia voltar e me bater ou pior "me mostrar quem era o viado". Minha mãe também havia sofrido agressões e me falou isso pois tinha sempre medo do pior, como eu, como todas nós, medo de sermos estupradas. Eu tenho muito ódio disso. Tenho ódio de ter sempre esta sombra social, que está inconsciente e também consciente e interfere nas decisões que eu tomo, nos lugares por onde ando, o que eu deixo de fazer... não adianta, quando um babaca não tem o que fazer, ele estupra. E eu tenho que ter medo disso, eu tenho que vomitar toda vez que ouço uma notícia dessas, eu tenho que vomitar quando lembro de minhas antepassadas e suas relações senhoris, eu tenho que vomitar quando sei que isso acontece todo dia, que todo dia mulheres tem que temer seus e por seus corpos de mulher, por suas vidas de mulher. Tudo isso estava comigo nesse dia. Não tinha senso de humor. Tinha senso de realidade crua. As vezes eles se aproximavam da praia, como se fossem vir onde eu estava. Falavam alguma frase ridícula. Eu comecei a gritar minha poesia "A rua é minha, a casa é minha, o corpo é meu, a vida é minha...", mas não tinha força suficiente. Não sabia pra onde falava. Falei pro mar. Querendo falar pra eles. Aí pensei "eles não podem fazer nada contra mim... se vierem aqui perto eu faço um escândalo". Entrei no mar, por trás da rocha e aí o idiota maior gritou mais ainda. E olhe que eu estava de short e camisa. Pensei "será que eu estou emanando medo? Será que meu corpo está traduzindo a eles que eles podem gritar em minha direção, interferir no que estou fazendo por que estou com medo?" Claro que estava fragilizada, pois estava experimentando o ambiente, estava me permitindo conhecer e perceber que o pior dos problemas não eram as pina-unas, ou a rebentação. O problema não estava no mar, estava na terra, o problema era humano, eram homens exercendo seu direito social de importunar mulheres. Eu respirei algumas vezes na água. Sai, comi uma tangerina, botei a roupa seca e subi as escadas pronta pra esganar eles e o seu "já vai mãe" "quero te conhecer". Ainda chegou um quarto filho do estopô pra fazer parte do time. Passei direto, joguei a casca da tangerina com raiva na lixeira e apodreci um pouco por dentro. Lembrei do dia que cuspi na calçada quando um cara me falou uma merda qualquer, cuspi pra ele ver, e falei que tinha nojo. Lembrei de outra vez que dei "banana" pra uns operários numa obra e xinguei, lembrei de outro dia quando atravessava o semáforo e imediatamente fiz uma careta, não uma careta bonitinha, mas uma careta de bruxa, de mulher búfalo pra um motoqueiro. Lembrei de como chateava e era assediada pelo "chefe" da agência bancária que trabalhava porque não era legal como ele achava que eu tinha de ser rindo de suas piadas idiotas, lembrei, lembrei, lembrei... mas sai dali com minha dor, porque nem sempre podia responder, nem sempre encontrava saída. Saí revolvida, pensando em minha atuação, em minha situação, sociais, em como nos arrancam pedaços diariamente, em o que fazer pra continuar sendo forte, sendo atriz, sendo mulher, tendo esses outros olhos, abrindo outros olhos do meu corpo, percebendo mais, percebendo o quanto da minha dificuldade de mover, de me expressar estão roubadas pelas agressões históricas do dia-a-dia. Eu apenas tentava ensaiar, respirar com o mar... e me tornei o alvo, estava no palco da vida... entendi minhas poesias sopradas, outra vez entendi completamente todas as nossas falas sangrentas.

1 comentario:

  1. Boa noite Gabriela. Lamento muito o que aconteceu. É realmente triste saber que acontecem essas coisas. Sei também por Isabel que ser mulher e mulher negra em Salvador é uma coisa muito dura, muito cruel. Infelizmente o pior da cultura branca machista e racista foi espalhado e dotado por todos os cantos e até muitos homens e mulheres de raça negra a adotaram e reproduzem. Levará muitas lutas e muito tempo mudar isso e sanar tantas feridas, tanta opressão e violência... Li seu texto justo antes de ler o jornal e vi que a capa falava desse mesmo tema... esse dia fiquei um pouco apreensivo quando deixe você sozinha trabalhando... Fico triste por isso. Também estou preocupado com sua saúde, está melhor? Sabe que pode contar comigo. Tentemos fazer nosso encontro quarta.

    um abração !

    martin

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