Fases
Textos: Adriana Gabriela
Roteiro: Martin Domecq
Imagens: pinturas e desenhos de Odilon Redon
Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
(…)
Cecília Meireles, Lua adversa.
Estrutura de Fases:
Prólogo: coreografia
Primeiro bloco (introdução)
Segundo bloco (a lua)
Terceiro bloco (o feminino)
Quarto bloco (a poesia)
Quinto bloco (despedida)
Epílogo: coreografia
A estrutura compreende também: duas canções
e três improvisações.
Canção 1 introduz eixo lua (e é retomada no final)
Canção 2 introduz eixo o feminino
Improvisação 1: “celebração” do presente.
Improvisação 2: redemoinho de versos e imagens.
Improvisação 3: improvisação de despedida.
** Prólogo **
Uma mulher aparece por trás de uns rochedos e caminha até a borda de um precipício. canta palavras inventadas que parecem lamentos, hinos ou gritos. (Essas palavras serão três. Serão retomadas ao longo da "peça" como transições, introdução, fechamentos...) Seus gestos transmitem abandono, sofrimento, renuncia, pesar, desespero e fúria... Parece que vai se jogar no mar. Porém sua tribulação se transforma pouco a pouco em um ritual de renascimento.
A mulher se dirige então à beira de uma piscina calma de águas salgadas onde improvisa
uma ode aos elementos, ás sensações, ao estar presente nesse lugar, nesse instante...
Improvisação 1. Celebração do presente.
Depois dessa abertura, pronuncia uma das palavras musicais inventadas. Essa palavra introduz os três textos do primeiro bloco.
** Primeiro **
Um coração grita por novos caminhos. Há nele adereços de melancolia. Ainda que a estrada aponte pra ida, há sempre uma volta, uma dor de partida, um caminho que volta. Por onde passa flores nascem. Outras tantas morrem... E o que é a estrada senão a andada em estações de vida-morte-vida? Já que a estrada é também fértil pelas flores mortas, meu coração cultiva, Outros campos, outras cores, outros sabores, Sob o falecer das flores idas. Em suave desapego Tudo nasce e renasce. Não duvido, A morte aduba a vida!
As manhãs chuvosas são meu melhor remédio. Posso tomá-las e chorar. Sano em água meu concreto barro seco, para ser lama entre vértebras cervicais. Gosto de Frida. Como ela... tenho coluna quebrada e verso. Há quanto tempo não sinto esse cheiro... esse cheiro de manhã, de me dar as mãos, de me ver no céu e no vento. Eu gosto da chuva. Como gosto! Sou ela caindo, gotejo.
Retornar, eis tarefa mais difícil! Lembrar de ser... não esquecer. A busca não é por poder, é por poder ser, mulher, num país de homens, num mundo masculino, em dias de guerra, a espera, letal. Morre-se muito, todo dia, morre-se muito, por covardia, morre-se muito, quadro nefasto... Angario flores no seio e ventre da mãe de tudo. Haverá um dia, e este dia é hoje, em que a alma feminina virá nos despir, virá nos vestir, de flores, de amores, de cores, de odores, de terra, de vida! Aí, almas renascidas, mulheres levantadas, homens em comunhão, andaremos juntos, Sequer pensando em armas, Sequer planejando dominação, Opressão, num jeito especial de fazer política, de fazer amor e de dizer não. Haverá um dia, e esse dia é hoje, em que a lentidão do gestar será nosso maior conselho. Pausar... Pousar os olhos, o corpo, no substrato da terra, na andança, na bem aventurança, no explícito inaudível, silêncio, E por ser lento, nos gestará em forma de... em formas de... Descobriremos! Renasceremos! Inauguremos uma nova era, Feminina, pausa ativa, Mulher!
Outra das palavras musicais serve agora como introdução para o segundo bloco que começa com uma canção.
** Segundo **
Eu tenho tanto medo Lua. Tanto medo. Parece que me perdi. Parece que fiquei do outro lado, onde ninguém pode me ver. Sombreada. Você me ilumina incrivelmente bela e eu não tenho seu domínio. São só nuvens e uma multidão que não posso compreender. Você me fascina e eu choro, choro por não compreender, sequer este mundo, quanto mais o seu, pedra que brilha luz. Pensar em astros não me faz mais luz. Pensar em ti, lua, me encarrega de querer saber mais, mais e mais sobre a vida, inconcebível. Bebo do seu veneno. É doce e amargo. Amarelo e negro. É ouro brilhando acima de luzes. São pequenas partículas em devoção e eu aqui, sem saber. Tenho medo. Me diz. Tenho medo, e muitas vezes nem sei o que fazer. Tenho medo de estar só. Não ser mais que um astro solitário. A brilhar, eu sei. Um astro solitário a brilhar, por traz de nuvens. Que sentido tem tudo isso? Você se põe e minha face é bela. Tudo que esperei rever. Como aquele domingo, dançando luz, céu, luar em mãos. A Ilha de Itaparica agradece as suas telas. Mal posso respirar se lembro dela. Luar caindo por traz de sol. Quanta poesia! Você me lembra que nem tudo é isso e eu te amo. Ficarei a noite inteira te vendo ir, descer farta, torta, guia maior das horas de sonolência, perfeita saúde em seu ser. Afrodite. Mistério de vida. Minha alma cativa quer fugir. Eiiihhh. Bola amarela, dissolve entre as nuvens formas mil. Some e aparece. Se deita em nuvens. Vira flecha. Me banha de pressa de te ver entrar no mar. Cortante. Atravessa. Cria pêndulo. Mistura-se. Tece ninho. Faz meu coração bater miúdo. Penso em te abraçar... e não tenho mais medo. Te espero curar minha lágrima com seu ardor de fogo. Incandescência que reluz em minha porta. Me abre. Transpassa em mim meu coração. Cadê ela? (Silêncio...) A lua desce. Sumiu.
Marés
Uma lágrima se aproxima de um verso porque cai sem sentido métrico mas cai poesia à espera sempre à espera de uma outra lágrima tal qual um verso que não se completa Quando rio Copiosa, tempestade salgada em mar as lágrimas são versos-desespero que não cansam, não cessam, não bastam são o texto perfeito para um fim de amor ou para uma carta de amor São di-ssolução É maré limpando água É o sim e o não de mãos dadas É contradição de maré que arrebenta o mar nas pedras, no cais, na beira... transbordando... transformando... pra trazer paz Por isso quando o olhar marejo sei é tempo de poesia porque poesia é de tanto em tanto água e sal feito lágrima, feito mar versos simples palavras simples que unem tudo aquilo que sentimos aos transcursos da maré É uma parte de nós que volta a fazer sentido como um gole de água cedido ao rio como um verso colocado ao fim do dia para acabar o poema... Melancolia.
Eu nasci em pé. Em pé de pedra, bruta flor. Eu rogo à Deusa que me tirou do mais profundo silêncio para vir ter aqui, junta a outras tantas flores e cipós.Peço desculpa, sou mal educada. (riso) Não me apresento de frente, apenas apareço Cândida, e este não é o meu nome.Ninguém de fato reconhecerá meu leito, dado apenas a outra face na morte, ou, para aqueles que crêem.Procure-a. Procure a sebenta, a divina espírita santa senhora, a mainha das horas. Converse com ela que de cá verá relampejante reluzente e amante luarada, luar, lunar, pedra de assombração. Aquela dor que dá em tudo e é foice, lua nova em bastão. Feiticeira minha, mulher. Nem sempre o dito é compreendido. Feche os olhos, sinta esse ar fresco, ouça essa multidão que não te deixa dormir... e deixe ela passar. Respire comigo um sopro profundo e chore, chore pra lavar sua visão.Estamos inteiramente em nós? Ou essa busca é tradição surrealista? As vezes eu acordo no meio da noite e vejo ela me olhando... ah...eu olho pra ela e não sei de nada, Apenas olho, porque ela me olha, noturnamente ela me olha e cobre meu corpo de luz. Estou possuída, passista de sonhos, vislumbre... estou viva, estou fértil.
É a dor da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe, da mãe da minha mãe que eu choro. Essa dor é de toda a história que existiu até chegar a mim. Eu estudo essas histórias. Eu as vejo referenciada ao meu redor e me pergunto se houve vislumbres de ser feliz. Por trás de toda mulher forte existe um rio, que ampara e escoa cada lágrima deixada por ela, por tentar encontrar e retomar um pouco mais do espaço que lhe foi tirado, sua liberdade, sua doçura, seu ardor de viver e não apenas decepcionar-se. Como ser feliz apesar de? Como ser feliz andando num mundo perigoso, violento? Me preparo pra ser lua cheia iluminando a noite escura. Para questionar e transgredir sem culpa, e com responsabilidade, essa força de sombra consciente direcionada para a construção de um novo e próprio mundo. O poder das bruxas, do canto das sereias, que conduzem ao conhecimento das profundezas, que transmutam a dor, o apartamento da alma, a apatia, a frigidez, em gozo de conhecimento maior que ego, em sensatez de uma comunhão sincera, em paz de compreender os próprios atos, em assunção dos fracassos e fragilidades humanamente heróicos. Eis o retorno de Lilith do império da solidão. Eis a mulher suja de sangue e saliva empoderada pela liquidez de seus excrementos férteis; aquela que assume a palavra maldita, a palavra medo, a palavra gozo e assim pode assumir e gestar a palavra amor, pois já viveu e vive as dores gestadoras deste parto como força propulsora do nascimento em si de uma outra humanidade de face exposta e em comunhão com o mundo, rejeitado e esquecido, mais uma vez convidado a aparecer. Louvo à minha mãe, à mãe de minha mãe, à mãe da mãe de minha mãe, à da mãe da mãe da mãe de minha mãe. Louvo às minhas antepassadas e à todas as mulheres presentes. Louvo às pequenas e às que virão. Louvo à mim. Louvo querendo aprender a ser mais feliz, por não suportar viver mais na subterraneidade de meus desejos.
** Terceiro **
Canção 2 (Letra e música Lila Downs)
Mujer de Dios / Mulher
de Deus (para nós pode ser mulher da lua)
profeta de hierba / profeta de erva
mujer de la edad del tiempo / mulher da idade do tempo
que hace honor a los muertos santos / que honra os mortos santos
mujer de Dios / mulher de Deus (da Lua)
mujer de la obscuridad / mulher da escuridão
mujer de tiempos sagrados / mulher de tempos sagrados
diosa del mundo de muertos / deusa dos mortos
venas y carne, tu fruto ha crecido / veias e carne, teu fruto cresceu
la tierra tu sangre siempre beberás / a terra teu sangue sempre beberás
ía si'i ja nakani
ini nasa kóó-yo
ña'a ni kuu taninu
Capullo de algodón trae mi madre / botão de algodão traz minha mãe
que es la Diosa de sáama / que é a Deusa do amanhã
reina del sur dirección de la muerte / rainha do sul direção da morte
que bebe el agua verde / que bebe água verde
y de hongos copal y fuego / e com cogumelos resina e fogo
hace ofrenda a la madre muerta/ faz oferendas à mãe morta
que cuida este mundo mortal / que cuida esse mundo mortal
Nace de niebla y su monte cráneo y piedra / Nasce da névoa e seu morro crânio e pedra
Diosa de la tierra siempre vivirás / Deusa da terra sempre viverás
Y de hongos copal y fuego / e de cugumelos resina e fogo
hace ofrenda a la madre muerta /faz oferendas a mãe morta
que cuida este mundo mortal /que cuida esse mundo mortal
Nace de niebla y su monte cráneo y piedra / Nasce da terra e seu morro crânio e pedra
madre muerta... jina / faz oferendas à mãe morta
Diosa de la tierra, siempre vivirás. / Deusa da terra sempre viverás
Hoje veio me visitar um sentir de ser outra, a mulher que me assusta me entrelaçou com seu rabo de sereia. Serei eu? Será ela? E eu despi minha pele com delicadeza... peça por peça um mundo crescia em segredo... O avesso é o medo de olhar no fundo. Da matéria do mundo o meu corpo é feito. A escuridão é também o meu reduto. Se onde há sol, há sombra, de sol e sombra me completo. Sou encanto, sou solidão. Posso ferir ou ser aconchego. Eu sou má. Eu sou mar. Eu, a mulher que virá
A rua é minha. A casa é minha. O corpo é meu. A vida, ó Deusa, é minha. Reivindico. Tenho boca, e ela é enorme. Suspiro, Grito, sons de precipício, me lanço grave e aguda. Ando e caminho por onde quero e desejo. Tenho apenas início... (pausa)Vou ali olhar e é você quem me leva Nunca quis a coisa certa. Pra andar comigo, mínimo ser descoberta, entender de transfigurescência, das fases da lua... e se for de pedra, que role! Despreciso de permanência. Atravesso a bamba hora do não saber, becos e vielas, reentrâncias... naquilo que acham sujo estou. Não me convenço em ser adereço, Chuva viva sou Porque os rios também são meus, as praias, fortes e rebentos... O desgosto, o triste o feio, aceito todos, (pausa)e a morte... bela dama que sobe ao altar numa noite de lua crescente, é minha chama e vem orar recostada comigo, em templo, por todas as coisas que me dão medo, pelo filho que ainda não tive, pelo ventre grávido de tudo, pelo amor que nasce em meu seio, pelo meu irmão, irmã, pais... que ficaram a beira do caminho, me sustentando em seus lamentos, entre a luz do sol e a escuridão. Materno todos, (pausa)como materno a mim, às estrelas frutas de céu noturno, árvore cadente, à beleza de vomitar também em beiras de caminho, o que não necessita mais andar comigo, à beleza de deitar-me com a lua, descansar nos olhos dela, clarão de corpo comido de relva... Para ir ter com meus pés, lá, onde mora a bela dama. lá, onde moram os meus medos. lá, onde sou raiz em movimento. lá, onde tem paixão e desassossego, desejo e gozo de ser mistério... Vou, simplesmente vôo.
Depois de amar e amar e amar um pouco mais amar,
é como que depois de sofrer e sofrer e sofrer,
uma escolha triste,
desejo e medo,
dois papéis de parede,
insistentes.
Se por amor ou por temor,
vai que engraviste do que é teu,
não esqueça de ser renitente,
Nesse liquefaz de nutrientes que nem se sabe bem qual bem que tem,
pergunte-se com fervor, que quero parir?
Se é que há espaço para certezas lógicas...
Mas é sempre espaço para vontadear,
mesmo diante de esquisitices,
Aceite, mas pense em seu bem,
Você, dobrado ao meio, perdido no espaço,
com a garganta cheia de alguma coisa,
e as tetas, tetas!
Barriga nem se fala,
embrulhos de vislumbres,
marés de março em começos de sonho,
O corpo sente tudo.
Tsunami! Ânsia!
Quando será a hora?
De que?
Quem, quem, quem, quem?
O qu ê, o quê, o quê?
Preste atenção,
siga o rastro de seu olho
e vá parir.
Mas Como parir? Se até isso desaprendi.
Eu não sei o que se passa em meu corpo.
Eu perco poemas.
Eu reclamo dos dias.
Eu não sei exatamente o que fazer de minha vida
.
Eu quero deixar alguma coisa boa na existência,
então deixo, para além de todo esse medo,
O ardor de ser movida pela vida
e suas estações.
Minha loucura não tem hora, Sai toda de mim E exige que eu me mova. Ela grita que os erros são todos meus! Os sonhos são todos meus! Meus caminhos, eu quem passo! Minha loucura não tem hora, Me empurra pra fora do muro, Me insulta em insinuações de covardia, Me manda pra boca do mundo... Minha loucura me faz sempre querer ir Pra um sem nome cheio de mistério.
** Quarto **
Depois do texto minha loucura (último texto do bloco 3) daria para se jogar na água...
Improvisação 2. Redemoinho de versos e imagens.
E o poema não saiu autêntico
pois tem-se que atravessar esquinas
fingindo ser normal
pois tem que se usar a língua
pra ser compreensível
e caber na métrica do dia-a-dia
Aí o poema não saiu autêntico
nem a voz
nem o corpo
nem o desejo
porque a voz, o corpo e o desejo
estão confiscados
como as reais palavras
confiscadas
como aquele beijo que você não deu
aquele sorriso, berro, cuspe, soco
incabíveis, ética anormal
Tudo tendo que caber
E não olhe para o lado
Não diga o que pensa
Não seja sincero
Não cante, jamais!
E se for dançar encontre logo uma coreografia
de preferência boa
E se for escrever, faça sentido
como um soldado
Escreva direito, ande direito, coma direito, sorria direito, fale direito, fume direito, ame direito, durma direito e de preferência não sonhe
Sonhar dá insônia e tem morfologia aérea
Mantenha-se firme na terra e só vá pra esquerda,
apenas,
no dois pra lá, dois pra cá
Mantenha-se em segredo
Tenha cuidado
Você não quer ser o palhaço ou levar um balaço, nem fazer estardalhaço
O mundo é perigoso, sorria
Ponha a sua máscara do dia e, de preferência, vá trabalhar!
E eu achando que a poesia era o último lugar de liberdade...
As águas que passam em mim
são rios que nunca cessam
Sou poeta só de ver
de sentir o que me desperta
Eu rimo, pra ficar engraçado
a vida que me leva
Eu sou rio e sorrio
porque as vezes faço o avesso da rima
crio frases longas, chego a lugar algum...
Mas sigo, verso sempre!
Insisto em ser poema
em ser
cada dia
dia após dia
a poesia que me cabe e me transborda
Por isso colho ventos pra mais tarde
revolvendo em mim as águas
e deixo o sol me despir de manhã
Tem vento que sopra lento
tem vento que Eparrê Iansã!
Olha a rima de novo!
Descabida e boba...?
Não importa
Não me importo
Meu verso é sempre de água
porque sou a própria água
sou do rio que posso ser
amo e bebo
do turvo, do límpido
do musgo, limo, lama
que me beiram e acompanham
Eu vejo o mundo, miro ele
e sendo rio, sou espelho
me derramo
sempre...
Às águas que nunca cessam...
Eu hesitei até o último segundo a fazer o que tinha. Preceito de morte. Presságio que depois da palavra dita, nada se acomodará. Há uma palavra: definifivamente. Ela é tão distante. Me diz nada e mata. Como alguma coisa pode te dizer nada e te matar? Como um tiro de bala perdida, ou tiro de agressão irremediável e imediata. Nunca consegui ser definitivamente. Definitivamente me mata e `a outras palavras tão boba e perenes quanto eu. Não posso ser definitivamente, ou qualquer coisa que defina estado, ser, relações de cortesia. Sou poesia inacabada. E até caberia um definitivamente aqui, mas não cabe, nem um ponto final.
A febre se dá por hesitação, ou pela tosse da pessoa ao lado `a remedar teus gestos cabalísticos. O homem tem fome de não ser definitivo e de não caber em nada, inclusive num verso, que nunca acaba. É a pausa, o silêncio para outra canção.
Por isso hesito ao que me soa como definitivo. Fecho portas apenas para abri-las mais tarde e me recompor dos ventos. Hesito, pois sei que estarei transformada ao final da página. Um começo diferente. Hesito pois tenho louvor e medo por tudo que está para nascer e me parece louco e sem sentido. Hesito, pois a morte requer seus ritos fúnebres de desapego e reencarnação. Hesito pois o plantado poderá ser flor que só dá em matagal, única e solitária. Hesito, pois a morte abre caminho para minha própria criação.
** Quinto **
Improvisação 3. Despedida.
Canção 1